A ESCOLA E AS NOVAS CAUSAS | |
Por Medialetra (Professor), em 2015/01/17 | 725 leram | ![]() ![]() |
Agora que começa a assentar a poeira criada pelas ondas de choque do hediondo atentado de Paris, cabe deixar aqui uma breve e despretensiosa posição que a escola deve adotar face aos recentes acontecimentos. | |
![]() Precisamente porque se trata de uma escola, mais hercúlea se torna a tarefa de não tomar este ou aquele partido, de evitar o máximo denominador comum dos comentários que alastram pelas redes sociais ou, ainda, não optar pela posição da avestruz, fazendo de conta que nada daquilo nos diz respeito, que o nosso país está a salvo de tais horrores. Porque nos orgulhamos de defender e cultivar uma escola inclusiva, multicultural e tolerante, a reação imediata perante os factos foi a de não reagir de forma grotesca ou atabalhoada, antes condenar o ato em si, independentemente dos argumentos que sustentem uma e outra das partes em confronto. Mais do que insistir no que não fazer, à escola bastará dizer o que fazer, dar pistas para encarar os desafios, privilegiar objetivos: Por isso respeitamos valores, fomentamos a cidadania e perseguimos a utopia. Parece-me que aqui está o essencial deste nó górdio que a sociedade atual não consegue desatar: em vez das causas para esta decadência, a sociedade atual deverá, antes, questionar as razões que conduziram à decadência de múltiplas causas. A sociedade não pode estar surpresa quando prometeu utopias e só garante distopias; assegura alguma cidadania formal, mas é escassa no que concerne ao pleno exercício de uma cidadania substantiva; proclama os direitos humanos, mas justifica-se com escassez de meios para os assegurar; anuncia a igualdade, mas isso quase nunca tem correspondência na justiça. Eis, pois, em suma, o desafio da escola: Mais do que estabelecer quem tem razão, importa discutir a razão; mais do reagir, importa estudar; mais do que selecionar a verdade, impõe-se interiorizar a verdade; mais do que hierarquizar culturas, devemos sensibilizar os nossos jovens para o universalismo da cultura; mais do que impor a nossa crença, é forçoso que respeitemos a crença alheia. Que de todos estes acontecimentos se faça um “Case study”, isso cabe aos decisores políticos, que deverão igualmente refletir sobre o papel que lhes cabe em todo este estado de coisas; a escola persistirá no seu caminho profilático, preparando as futuras gerações de dirigentes, através do estudo, da reflexão e da apropriação desse bem precioso que são os valores humanos. Desde o século XVIII que a Revolução Francesa consagrou aquilo que seria o bastante para uma sociedade justa, tolerante, equilibrada. Continua a ter razão o poeta ao afirmar que “já todas as palavras foram ditas para salvar o mundo; falta apenas salvá-lo”. Porque a construção do futuro passa pelas novas gerações, vamos apetrechá-las com ferramentas adequadas às novas edificações; porque as utopias falharam, vamos ajudá-las a descobrir novos “topoe” de idealismos; porque as palavras parecem esvaziadas de conteúdo sémico, que a escola dê o seu precioso contributo para a reinvenção dos valores. Porque de uma escola falamos, será esta milenar instituição quem virá reavivar as consciências, evitando que o essencial caia no baú do esquecimento, cumprindo o desígnio de André Gide: “Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso sempre dizer de novo”. Se a escola cumprir com o que dela se espera e o seus alunos beberem toda a seiva que dela brote, pode ser que num futuro, mais ou menos próximo, os nossos jovens passem a adotar como lema palavras como esta “finda” do poema de António Sousa, Canção da Felicidade: ... Felicidade! ... Afinal, fôssemos nós naturais e limpos de todo o mal, não era preciso mais!... Simão Cadete Director da Escola | |
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